
Nascido em 1991, Fábio Santos revelou desde cedo um grande interesse por história e artes. A admiração por líderes militares como Aníbal e Júlio César convivia com o gosto por criar: em criança, era habitual vê-lo a desenhar ou a construir facas e flechas de madeira. “Agarrava na mochila e na catana do meu pai e ia para o pinhal. Desbastava a madeira das árvores que escolhia e fazia as minhas coisas”, recorda Fábio, que cresceu na aldeia de Souto de Cima, perto de Leiria. Ao mesmo tempo, gostava de passar horas na biblioteca municipal, mergulhado em livros sobre história militar. As táticas dos grandes generais não só o fascinavam, como serviam de inspiração para as suas brincadeiras com tropas de brincar.

Depois de concluir o ensino secundário, Fábio chegou a ponderar seguir Arquitetura, mas depressa percebeu que não era esse o seu caminho. A paixão pelas artes falou mais alto e levou-o a ingressar no curso de Escultura, com especialização em pedra, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Curiosamente, até então nunca tinha trabalhado com esse material, que se tornou central no seu percurso académico. Durante esse período, participou num workshop integrado no Simppetra — o Simpósio Internacional de Escultura em Pedra das Caldas da Rainha. Em paralelo, e por iniciativa própria, foi explorando outras técnicas, como a criação de moldes em barro.

Algum tempo antes de concluir o curso, numa fase em que sentia necessidade de ocupar a mente, Fábio decidiu recuperar uma paixão antiga: a construção de facas e outras armas. Lembrou-se então de fazer uma forja num anexo da casa dos pais — um espaço onde pudesse experimentar livremente e retomar o fascínio de infância pela criação de objetos inspirados no universo militar. Pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de pôr em prática os seus conhecimentos na área do ferro. Embora a sua especialização fosse em pedra, decidiu realizar um trabalho em ferro para uma das cadeiras do curso: uma videira com cerca de dois metros de altura. Enquanto o via trabalhar, o professor sugeriu que se inscrevesse na cadeira de Forja — afinal, já demonstrava saber fazê-lo. Durante o último ano do curso, encontrou espaço para se dedicar mais à arte da forja, complementando a formação académica com uma pesquisa contínua desenvolvida por iniciativa própria.

Após concluir o curso de Escultura, cinco anos depois de se mudar para Lisboa, Fábio decidiu regressar às suas origens. Em Souto de Cima encontrou não só o espaço físico de que precisava para trabalhar, mas também o ambiente tranquilo e inspirador que considerava ideal para desenvolver os seus projetos artísticos. A forja, construída com a ajuda do pai e continuamente aprimorada ao longo do tempo, tornou-se o coração do seu processo criativo — um lugar onde tradição, técnica e imaginação se fundem.

“Faço tudo o que corta, tudo o que seja lâminas”, afirma Fábio Santos, definindo o seu ofício de cuteleiro. As facas — sejam utilitárias ou artísticas — são as peças mais representativas do seu trabalho, mas a sua produção não se limita a isso. Espadas, catanas e outras armas brancas fazem igualmente parte do seu repertório, sempre com uma atenção rigorosa à escolha dos materiais, à harmonia das formas e aos detalhes que refletem o seu profundo conhecimento em história militar. “Interessa-me muito o lado histórico deste trabalho — como as armas evoluíram ao longo do tempo e o que motivou essas mudanças”, explica, enquanto segura um gládio romano feito por si, a arma com que “o Império Romano conquistou o mundo”, como faz questão de sublinhar. “Por exemplo, quando se começou a usar armaduras, percebeu-se que era preciso criar um novo tipo de espada, mais eficaz contra esse tipo de proteção. Depois surgiram as armas de fogo, e as armaduras deixaram de fazer sentido. Todas estas nuances são muito interessantes para mim”.

Entre as peças que cria na forja, Fábio nutre uma predileção especial pelas espadas. “Gosto de peças imponentes”, confessa, antes de revelar que a maior que já produziu foi uma “longsword” — um tipo de espada europeia — com uma lâmina de 1,40 metros de comprimento. “Esta forja foi pensada para peças grandes. Quando a construí, preparei-a para conseguir forjar a maior espada que pudesse vir a fazer: a ‘claymore’”, explica, referindo-se à espada escocesa de duas mãos que se tornou amplamente conhecida através do filme Braveheart. Apesar de já ter forjado várias espadas de samurai e de admirar a cultura japonesa — especialmente pelo cuidado, tempo e dedicação com que fazem as coisas — Fábio admite que a inspiração para as suas criações vem, na maioria das vezes, da tradição medieval europeia.

Ainda que as espadas ocupem um lugar especial no seu processo criativo, representam apenas uma pequena parte do que é produzido na forja. As facas, em particular, são as peças com mais saída — seja pelo interesse de colecionadores, seja pela procura de utensílios de corte personalizados e de qualidade. Entre os que procuram o seu trabalho estão chefs, caçadores, entusiastas da cozinha e admiradores de peças com valor histórico ou artístico. Para Fábio Santos, cada peça deve funcionar como uma extensão do corpo de quem a utiliza. Por isso, procura compreender a fundo o uso que será dado à faca: se o cliente é destro ou canhoto, em que direção aplica o corte e em que contexto a peça será utilizada. Em alguns casos, chega mesmo a recolher o molde da mão do comprador, de forma a garantir o máximo de ergonomia e personalização. No que diz respeito aos materiais, o cuteleiro dá preferência a madeiras nacionais para os cabos das facas. A madeira de oliveira — a mais usada — divide espaço com outras espécies como o azinho, o carvalho e a cerejeira. Pontualmente, surgem pedidos que requerem madeiras mais exóticas, como o ébano ou a sucupira. As lâminas, por sua vez, são produzidas com aços provenientes da indústria local ou de ferramentas agrícolas reaproveitadas, numa combinação que alia eficiência e sustentabilidade.

No trabalho de cuteleiro, Fábio reconhece uma influência direta da sua formação em escultura. “Dou muita importância à composição, às cores, ao seguimento das linhas... são tudo coisas que trouxe da escultura”, afirma, acrescentando que essa base artística lhe confere uma vantagem no ofício. O plano para o futuro passa por aprofundar essa fusão entre arte e utilidade, procurando chegar a mercados mais exclusivos. Através da escultura, pretende dedicar-se cada vez mais à criação daquilo a que chama facas artísticas — peças únicas, com cabos cuidadosamente esculpidos, pensadas para um público que valoriza a originalidade, o detalhe e está disposto a investir em objetos que são, ao mesmo tempo, ferramentas e obras de arte. Apesar do cuidado estético, Fábio garante que a funcionalidade nunca é descurada: “Tudo o que faço é 100% funcional, mesmo quando a peça tem uma finalidade decorativa. Gosto de pensar que, se um dia houver um apocalipse, a pessoa pode afiá-la e ter ali uma espada ou faca pronta a usar”.

Com cerca de uma década de experiência na cutelaria, Fábio Santos orgulha-se do percurso que construiu praticamente sozinho. Sem mestres nem mentores a orientá-lo, foi através da experimentação, da curiosidade e de uma dedicação constante que encontrou o seu caminho neste ofício exigente. A falta de orientação, no entanto, não se deveu à ausência de iniciativa da sua parte. Chegou a visitar dois ferreiros antigos, levando consigo perguntas e um genuíno desejo de aprender, mas a resposta ficou aquém do esperado: ambos recusaram transmitir os seus conhecimentos. Algo semelhante já havia acontecido anos antes, quando procurou aprofundar a arte da cantaria com um antigo canteiro de Lisboa. Também ele, apesar do interesse demonstrado por Fábio, não se mostrou disponível para ensinar. Essas experiências despertaram nele o desejo de partilhar aquilo que aprendeu de forma autodidata, para que outros não enfrentem os mesmos obstáculos que encontrou. Ao longo dos últimos anos, Fábio tem partilhado os seus conhecimentos em workshops informais com pessoas interessadas em saber mais sobre o seu ofício. “Volta e meia tenho aqui malta a aprender. São muitas vezes amigos de amigos, pessoas que me encontraram através das redes sociais”, explica. Num desses encontros, um rapaz decidiu oferecer ao pai a oportunidade de voltar a trabalhar numa forja — algo que não fazia desde a infância. “O homem esteve aqui comigo, almoçámos juntos e saiu daqui com uma faca feita por ele. Segundo o filho, esse dia ficou marcado na sua memória”. Fábio conta ainda que já teve a oportunidade de ensinar alguns jovens que se aproximaram da cutelaria inspirados por programas como Forged in Fire. Prestes a mudar-se para um novo espaço de trabalho, onde contará com melhores condições para ensinar, Fábio espera expandir a vertente formativa e acolher mais pessoas interessadas em aprender o ofício — sempre num ambiente descontraído, de partilha e experimentação. Situado a dois passos da casa dos pais, o novo local permitirá o ensino de diferentes técnicas: desde a forja tradicional, com exercícios como a criação de um puxador ou de uma colher, até à forja artística, dedicada a peças mais elaboradas. Entre os seus planos está também a criação de um curso completo de cutelaria, com módulos que vão dos fundamentos para iniciantes até às abordagens mais avançadas. O espaço será ainda organizado em áreas distintas, permitindo a Fábio dedicar-se plenamente às várias vertentes do seu trabalho: da forja à escultura em pedra, passando pelo trabalho em madeira e pelo desenho.
Apesar de toda a dedicação às artes, Fábio concilia o trabalho criativo com uma atividade profissional bastante distinta. De segunda a sexta, entre as 8h e as 17h, trabalha como técnico de qualidade, sendo responsável pela inspeção e pelo controlo de processos como a soldadura, a construção e a pintura em obra. Embora possa não parecer à primeira vista, esse emprego tem-se revelado uma fonte de aprendizagem útil para o seu trabalho na forja, sobretudo no que diz respeito à metalurgia, permitindo-lhe conhecer novas máquinas, materiais e técnicas. A partir das 18h e, geralmente, também aos sábados, Fábio dedica-se à forja — uma atividade que vai muito além de um simples passatempo, já que dela retira também rendimento. “O momento de desligar”, como Fábio descreve, acontece precisamente nesses períodos — sobretudo quando está a martelar o ferro. “Acaba por ser um momento zen. É muito barulho, mas consigo entrar no que estou a fazer e abstrair-me do resto”, explica. O fascínio pelo trabalho na forja transparece em cada palavra: “Gosto muito da ideia de ter um pensamento que, de repente, se transforma num movimento que se vai concretizar num ato de criação. Algo que à partida é tão rígido como o ferro torna-se, na forja, maleável como barro. Para mim, esse processo está muito próximo da alquimia”.
Mesmo sabendo que a perfeição é inatingível, Fábio Santos acredita que o único caminho possível é continuar a persegui-la. “Aquilo que faço agora, se fosse há cinco anos, talvez dissesse que estava perfeito. Mas hoje percebo que não estava. E daqui a cinco anos, provavelmente, vou pensar o mesmo sobre o que faço hoje. Vou andar sempre nisto — é uma busca incessante”, afirma. Longe de ser um obstáculo, essa insatisfação tornou-se o motor da sua evolução e um pilar do seu equilíbrio emocional. “Faz-me bem à sanidade mental. Meto um Led Zeppelin a tocar, ligo a forja, bato um bocado de ferro e, quando dou por mim, já é de noite — esqueci-me de almoçar e de jantar. Acontece sempre”, conta, com um sorriso nos lábios.