José Carlos Almeida

Natural de Coimbra, onde nasceu em 1967, José Carlos Almeida revelou desde cedo uma inclinação para os trabalhos manuais, fosse através do desenho ou da criação de pequenas peças em madeira e barro. Apesar de não ter qualquer ligação familiar à cerâmica, fascinava-o a possibilidade de transformar o barro, que encontrava perto de casa, moldando-o em pequenas formas que alimentavam a sua curiosidade criativa. O percurso escolar, no entanto, acabou por afastá-lo gradualmente da sua vocação artística.  

Aos 24 anos, ainda indeciso quanto ao futuro profissional, José dirigiu-se ao Centro de Emprego e Formação Profissional de Coimbra, onde um anúncio lhe chamou de imediato a atenção. Tratava-se de um curso de Modelação, a realizar no Cencal, nas Caldas da Rainha. Na imagem do cartaz via-se uma pessoa a trabalhar o barro, o que despertou o seu interesse e o levou a procurar informações sobre a possibilidade de frequentar a formação. O entusiasmo, porém, não durou muito. “Falei com um psicólogo do Centro de Emprego que me disse que não tinha aptidões físicas para o curso de Modelação”, recorda José, que foi vítima de um acidente, aos 12 anos, ficando com limitações na locomoção. Como alternativa, foi-lhe sugerido um curso de Desenho, proposta que não o agradou e o levou a suspender, por algum tempo, a vontade de prosseguir. No ano seguinte, ao regressar ao Centro de Emprego, o mesmo cartaz voltou a prender-lhe a atenção. Ainda hesitante quanto à opinião inicial, decidiu consultar outro profissional da área. Para sua surpresa, recebeu uma resposta completamente diferente: não havia qualquer impedimento em seguir Modelação e, de imediato, foi-lhe perguntado quando poderia começar o curso. Assim, José inscreveu-se no início do verão e aguardou, ansiosamente, a chamada que só chegaria perto do final do ano.

Quando finalmente entrou no Cencal, foi novamente avaliado por um psicólogo da instituição. O veredito soava-lhe familiar: “Disse-me que a modelação não era para mim, que devia antes optar pela Pintura Cerâmica, porque podia trabalhar sentado. Eu respondi que, sendo assim, não queria fazer curso nenhum”. A firmeza de José fez a diferença. O psicólogo acabou por o levar à secção de Modelação, onde se encontravam os formadores Euclides Rebelo e António Anunciação. Depois de ouvir a explicação, o senhor Euclides foi perentório: “Ele vem para aqui e, se der, dá. Se não der, vai para outra área”“Fiquei todo contente”, relembra José, que sentia estar cada vez mais próximo de concretizar um sonho de infância: tornar-se artista plástico. E, ao contrário do que o psicólogo havia previsto, não encontrou dificuldades em executar os trabalhos propostos durante a formação. A sua dedicação destacou-se de tal forma que, ainda antes de concluir o curso, já trabalhava à noite no atelier do ceramista caldense Carlos Oliveira. Além da experiência prática proporcionada pela formação, teve ainda a oportunidade de aprender com mestres da modelação, entre os quais Herculano Elias, que se tornaria uma das suas principais referências.

Dois anos após a sua chegada às Caldas da Rainha, José concluiu o curso, realizando o estágio no próprio atelier onde já trabalhava. Foi lá que permaneceu nos anos seguintes, dedicando-se à modelação figurativa para diversas fábricas de cerâmica em todo o país. Mais tarde, decidiu abrir o seu próprio atelier e iniciar uma nova etapa em nome individual, expandindo o seu trabalho a outros materiais, através da criação de modelos para bronze, cera, vidro, porcelana, marfinite e resina.

Ao longo dos anos, José Carlos Almeida — ou simplesmente D’Almeida, como passou a assinar as suas criações — consolidou também uma carteira de clientes de referência, entre os quais se destacam a Vista Alegre, a Bordallo Pinheiro, a Porcel e a Braz Gil Studio, que o contratam para o desenvolvimento de novos modelos. Um dos trabalhos que melhor evidenciam a sua mestria como modelador é a coleção “Figurões”, desenvolvida para a Fábrica Bordallo Pinheiro, com muitas peças modeladas por José a partir de desenhos do cartoonista António. Da mesma colaboração, e em parceria com o ceramista caldense Carlos Constantino, nasceu também a estátua de Bordalo Pinheiro e do Zé Povinho, hoje instalada na Rua das Montras, no centro das Caldas da Rainha. O simbolismo desta obra para a cidade reforçou de forma especial a ligação de José ao lugar que o acolheu desde 1991.

Há cerca de 15 anos, José recebeu um convite que viria a marcar uma nova etapa no seu percurso: António Faustino, veterano da escultura e da cerâmica, desafiou-o a colaborar na criação de modelos de animais em fibra de vidro, à escala real. Nas instalações da empresa Parques do Eden — atelier de modelação e reprodução de figuras em Alcobaça — deparou-se com uma realidade artística distinta. Não só as dimensões das peças eram muito superiores ao que estava habituado, como também o material lhe era totalmente desconhecido. “Na altura, não sabia nada sobre a fibra de vidro. Comecei a fazer alguns trabalhos com o senhor Faustino e foi com ele que aprendi tudo sobre o funcionamento deste material”, recorda José. Depois dessa experiência inicial com a fibra de vidro, José começou a vislumbrar novas possibilidades para o seu trabalho. Em vez de esperar que os clientes lhe apresentassem propostas, decidiu criar ele próprio uma maquete para demonstrar o potencial de peças concebidas para espaços exteriores. Dessa iniciativa nasceu uma das suas primeiras esculturas públicas — e também uma das maiores — instalada numa rotunda no Porto Alto, concelho de Benavente. Composta por várias figuras, a obra retrata a condução do gado pelos campinos, evocando uma das tradições mais emblemáticas do Ribatejo. 

A partir daí, os serviços de José Carlos Almeida como modelador passaram a ser cada vez mais procurados por municípios e juntas de freguesia de diferentes regiões do país. Os temas, escolhidos pelas entidades que o contratam, estão quase sempre ligados à identidade cultural local, funcionando muitas vezes como homenagem às pessoas associadas a atividades tradicionais. De Olhão, onde ergueu uma escultura de homenagem ao pescador — figura central na identidade e na história da cidade , a Pegões, com uma obra dedicada ao ciclo do vinho, até ao Nadadouro, no concelho de Caldas da Rainha, onde se encontra a estátua de uma lavadeira, em tributo às mulheres que exerceram essa profissão. São inúmeras as esculturas públicas de José Carlos Almeida espalhadas pelo país, muitas delas instaladas em rotundas, tornando-se parte integrante da paisagem quotidiana das comunidades que representam. A ligação das suas peças aos lugares onde são instaladas reflete-se nas reações dos habitantes locais, que muitas vezes partilham com José o impacto que as esculturas têm nas suas vidas. Um dos episódios que lhe ficou gravado aconteceu em Alcácer do Sal, durante a instalação de uma escultura de homenagem aos salineiros. Entre os presentes, uma senhora aproximou-se, visivelmente emocionada. Contou-lhe que os salineiros tinham sido muito importantes na sua vida, ajudando-a com bens essenciais na fase em que mais precisava de sustentar a família. “Com lágrimas nos olhos, disse-me que a escultura lhe dizia muito. Essa reação sensibilizou-me”, recorda José, orgulhoso por poder despertar sentimentos tão profundos através da sua arte. Embora aprecie a arte abstrata, José privilegia, nas suas esculturas públicas, uma linguagem direta e acessível, que permita a qualquer pessoa reconhecer de imediato a homenagem e a herança cultural que se procura preservar.

Com um estilo eminentemente figurativo, José Carlos Almeida é procurado para intervir no espaço público, criando obras que dialogam diretamente com a identidade e a memória coletiva dos lugares. Para além das esculturas em praças e rotundas, é também autor de inúmeros bustos erguidos em diferentes regiões do país, que prestam homenagem a personalidades marcantes da história local. Apesar do sucesso profissional, José admite que nunca fica totalmente satisfeito com o resultado final das suas peças. Essa insatisfação constante, porém, é algo que valoriza, pois considera ser a atitude certa: “quando estamos insatisfeitos, é sinal de que estamos a tentar evoluir”.

Mais de três décadas após ter iniciado o seu percurso, José demonstrou que os psicólogos que o desencorajaram estavam redondamente enganados. Hoje, é um modelador amplamente reconhecido a nível nacional, com uma obra que alia mestria técnica a uma profunda ligação à cultura e às tradições portuguesas. Ainda assim, não esconde as dificuldades impostas pelo seu problema físico. “Sei que tenho limitações e dificuldades no processo de criação, especialmente quando são peças grandes. Exige algum esforço físico, além de serem muitas horas de pé. Sinto que se não tivesse o meu problema físico, era muito mais fácil, nem tem comparação”, diz José, para logo acrescentar: “Quem corre por gosto não cansa”.